12 Poemas de Florbela Espanca

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,

Eu sou a que na vida não tem norte,

Sou a irmã do Sonho,e desta sorte

Sou a crucificada … a dolorida …

Sombra de névoa tênue e esvaecida,

E que o destino amargo, triste e forte,

Impele brutalmente para a morte!

Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…

Sou a que chamam triste sem o ser…

Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,

Alguém que veio ao mundo pra me ver,

E que nunca na vida me encontrou!

Florbela y su hermano Apeles

Charneca em Flor

Enche o meu peito, num encanto mago,

O frémito das coisas dolorosas…

Sob as urzes queimadas nascem rosas…

Nos meus olhos as lágrimas apago…

Anseio! Asas abertas! O que trago

Em mim? Eu oiço bocas silenciosas

Murmurar-me as palavras misteriosas

Que perturbam meu ser como um afago!

E, nesta febre ansiosa que me invade,

Dispo a minha mortalha, o meu burel,

E já não sou, Amor, Soror Saudade…

Olhos a arder em êxtases de amor,

Boca a saber a sol, a fruto, a mel:

Sou a charneca rude a abrir em flor!

Gándara en Flor

Rellena mi pecho, en un encanto mago,

El frémito de las cosas dolorosas…

Bajo los urces quemados nacen rosas…

En mis ojos las lágrimas apago…

¡Ansío! ¡Alas abiertas! ¿Lo que traigo

En mí? ¡Escucho bocas silenciosas

Murmurarme las palabras misteriosas

¡Que perturban mi ser como un halago!

Y, en esta fiebre ansiosa que me invade,

Desnudo mi palio, mi burel,

Y ya no soy, Amor, Sóror Saudade…

Ojos ardiendo en éxtasis de amor,

Boca sabiendo a sol, a fruto, a miel:

¡Soy la gándara ruda abriendo en flor!

Se tu viesses ver-me…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,

A essa hora dos mágicos cansaços,

Quando a noite de manso se avizinha,

E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha

A tua boca… o eco dos teus passos…

O teu riso de fonte… os teus abraços…

Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,

Traça as linhas dulcíssimas dum beijo

E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…

Quando os olhos se me cerram de desejo…

E os meus braços se estendem para ti…

Si tú vinieras a verme…

Si tú vinieras a verme hoy de atardecida,

A la hora de los mágicos cansancios,

Cuando la noche de manso se avecina,

Y me prendieras toda en tus brazos…

Cuando me recuerda: ese sabor que tenía

Tu boca… el eco de tus pasos…

Tu risa de fuente… tus abrazos…

Tus besos… tu mano en la mía…

Si tu vinieras cuando, linda y loca,

Traza las líneas dulcísimas de un beso

Y es de seda roja y canta y ríe

Y es como un clavo al sol mi boca…

Cuando los ojos se me cierran de deseo…

Y mis brazos se extienden hacia ti…

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!

Amar só por amar: aqui… além…

Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente…

Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…

Prender ou desprender? É mal? É bem?

Quem disser que se pode amar alguém

Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:

É preciso cantá-la assim florida,

Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada

Que seja a minha noite uma alvorada,

Que me saiba perder… pra me encontrar…

¡Amar!

¡Yo quiero amar, amar perdidamente!

Aquí… allá… Amar sólo por amar

Más a Este y a Aquél, al Otro y a toda la gente…

¡Amar! ¡Amar! ¡Y no amar a nadie!

¿Recordar? ¿Olvidar? ¡Indiferente!…

¿Prender o desprender? ¿Es mal? ¿Es bien?

¡Quién diga que se pueda amar alguien

Durante la vida entera es porque miente!

Hay una primavera en cada vida:

Es necesario cantarla así florida,

¡Porque si Dios nos dio voz, fue para cantar!

Y si un día voy a ser polvo, ceniza y nada

Que sea mi noche una alborada,

Que sepa perderme…para encontrarme…

Florbela y su primer marido Alberto Moutinho

Tédio

Passo pálida e triste. Oiço dizer:

“Que branca que ela é! Parece morta!”

e eu que vou sonhando, vaga, absorta,

não tenho um gesto, ou um olhar sequer …

Que diga o mundo e a gente o que quiser!

– O que é que isso me faz? O que me importa? …

O frio que trago dentro gela e corta

Tudo que é sonho e graça na mulher!

O que é que me importa?! Essa tristeza

É menos dor intensa que frieza,

É um tédio profundo de viver!

E é tudo sempre o mesmo, eternamente …

O mesmo lago plácido, dormente …

E os dias, sempre os mesmos, a correr …

De :”Livro de Mágoas”

A Mulher
I

Um ente de paixão e sacrifício,
De sofrimentos cheio, eis a mulher!
Esmaga o coração dentro do peito,
E nem te doas coração, sequer!

Sê forte, corajoso, não fraquejes
Na luta; sê em Vénus sempre Marte;
Sempre o mundo é vil e infame e os homens
Se te sentem gemer hão-de pisar-te!

Se às vezes tu fraquejas, pobrezinho,
Essa brancura ideal de puro arminho
Eles deixam pra sempre maculada;

E gritam então os vis: “Olhem, vejam
É aquela a infame!” e apedrejam
A probrezita, a triste, a desgraçada!

A Vida e a Morte

O que é a vida e a morte
Aquela infernal inimiga
A vida é o sorriso
E a morte da vida a guarida

A morte tem os desgostos
A vida tem os felizes
A cova tem a tristeza
E a vida tem as raízes

A vida e a morte são
O sorriso lisonjeiro
E o amor tem o navio
E o navio o marinheiro

O meu orgulho

Lembro-me o que fui dantes. Quem me dera

Não me lembrar! Em tardes dolorosas

Lembro-me que fui a Primavera

Que em muros velhos faz nascer as rosas!

As minhas mãos outrora carinhosas

Pairavam como pombas… Quem soubera

Porque tudo passou e foi quimera,

E porque os muros velhos não dão rosas!

O que eu mais amo é que mais me esquece…

E eu sonho: “Quem olvida não merece…”

E já não fico tão abandonada!

Sinto que valho mais, mais pobrezinha:

Que também é orgulho ser sozinha,

E também é nobreza não ter nada!

De : “Livro de Sóror Saudade”

Ódio?

Ódio por Ele? Não… Se o amei tanto,

se tanto bem lhe quis no meu passado,

se o encontrei depois de o ter sonhado,

se à vida assim roubei todo o encanto,

que importa se mentiu? E se hoje o pranto

turva o meu triste olhar, marmorizado,

olhar de monja, trágico, gelado

com um soturno e enorme Campo Santo!

Nunca mais o amar já é bastante!

Quero senti-lo doutra, bem distante,

como se fora meu, calma e serena!

Ódio seria em mim saudade infinda,

mágoa de o ter perdido, amor ainda!

Ódio por Ele? Não… não vale a pena…

De : “Livro de Sóror Saudade”

Conto De Fadas

Eu trago-te nas mãos o esquecimento

Das horas más que tens vivido, Amor!

e para as tuas chagas o unguento

com que sarei a minha própria dor.

Os meus gestos são ondas de Sorrento…

Trago no nome as letras de uma flor…

Foi dos meus olhos garços que um pintor

Tirou a luz para pintar o vento…

Dou-te o que tenho: o astro que dormita,

o manto dos crepúsculos da tarde,

o sol que é d’oiro, a onda que palpita.

Dou-te comigo o mundo que Deus fez!

– Eu sou Aquela de quem tens saudade,

a Princesa do conto: “Era uma vez…”

De : “Charneca em Flor”

Ser Poeta

Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior

Do que os homens! Morder como quem beija!

É ser mendigo e dar como quem seja

Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor

E não saber sequer que se deseja!

É ter cá dentro um astro que flameja,

É ter garras e asas de condor!

É ter fome, é ter sede de Infinito!

Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim…

É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…

É seres alma e sangue e vida em mim

E dizê-lo cantando a toda gente!

in “Charneca em Flor”, 1931

A la muerte

Muerte, mi Señora y Dueña Muerte,
tu abrazo, ¡debe ser tan bueno!
lánguido y dulce como un dulce lazo
y como una raíz, sereno y fuerte.

No hay mal que no sane o no conforte
tu mano que nos guía paso a paso,
en ti, dentro de ti, en tu regazo
no hay triste destino ni mala suerte.

Doña Muerte de los ojos de terciopelo,
¡cierra mis ojos que ya todo lo vieron!
¡sujeta mis alas que ya volaron tanto!

Vine de la Moirama, soy hija de rey,
mal hada me encantó y aquí quedé
a tu espera… ¡quiebra el encantamiento!

Florbela Espanca (Vila Viçosa,Portugal, 8 de diciembre de 1894, -Matosinhos, Portugal, 8 de diciembre de 1930). Poeta y escritora. Fue una figura pionera de la literatura feminista portuguesa. Es considerada la madre de las letras portuguesas.

Hija de Antónia de Conceição Lobo y del fotógrafo João Maria Espanca, uno de los pioneros que llevó el cinematógrafo a Portugal. El padre estaba casado con Mariana do Carmo Toscano, una mujer que era estéril y parece que la decisión de tener hijos con una amante fué algo consensuado. Florbela fue amadrinada por la esposa de su padre y criada en su casa, pero no fué reconocida legalmente como su hija hasta la edad de 18 años. Unos cuantos años después, Antónia dio a luz un niño, Apeles, único y querido hermano de Florbela Espanca. El padre quería que su hija tuviese una educación esmerada y fue de las pocas niñas en asistir al colegio en la ciudad de Évora y de las primeras en cursar la enseñanza en el Liceu Masculino André de Gouveia. En 1907 fallece su madre y es el padre y su esposa quienes se ocupan de sus hijos.

En 1903, cuando tenia ocho años, Espanca escribió su primer poema, A Vida e a Morte.

Con 19 años se casa por lo civil con un compañero del liceo, Alberto Moutinho, se queda embarazada pero tiene un aborto que le dejara graves secuelas psicológicas y físicas y provoca el final del matrimonio que se separa en 1917.

En 1916 su soneto Crisantemos fue publicado por la revista Modas & Bordados.

En 1917 se convirtió en una de las primeras mujeres en estudiar en la Universidad de Lisboa, matriculándose en Derecho.

 En 1922 vuelve a casarse con el alférez de la Guardia Nacional Republicana António José Marques Guimarães.Tienen una relación difícil llena de discusiones y maltratos por parte del marido. En 1923, Espanca sufre un nuevo aborto y se marcha al norte de Portugal por recomendación médica.

En el norte de Portugal, Florbela establecerá una relación con el doctor Mario Lage, y en 1925 se casa de nuevo, esta vez por lo religioso.

En 1927 el hidroavión que pilota su hermano Apeles se precipita al Tajo. La muerte de su hermano tiene un efecto devastador en ella, eso unido a que su marido mantiene una relación con otro hombre la sume en una profunda depresión y tiene su primer intento de suicidio.

Florbela Espanca, (tras dos intentos), se suicidó el 8 de diciembre, día de su cumpleaños, con una sobredosis de barbitúricos. Cumplía 36 años.

En la última página de su diario, el 2 de diciembre, solamente escribe: ¡y no hay nuevos gestos ni nuevas palabras!

En 1930, Espanca escribió el Diário do último ano, que recoge, en una mezcla de ficción y autobiografía, el último año de la autora a lo largo de treinta y dos fragmentos fechados desde primeros de enero hasta el dos de diciembre, solo seis días antes de que se suicidara. El diario fue publicado en 1981 por la editorial lisboeta Bertrand con prólogo de la escritora  Natália Correia.

En vida de Espanca sólo se publicaron dos de sus libros, las antologías, Livro de Mágoas (1919) y Livro de Sóror Saudade (1923). Durante los últimos años de su vida, luchó ardientemente por ver publicado su libro Charneca em Flor.

Ángel Guinda  publicó en 2002 una recopilación de 69 sonetos de Espanca bajo el título Las espinas de la rosa, en un edición bilingüe en portugués y castellano.

En 2012, se estrenó la película Florbela del director Vicente Alves do Ó, que estuvo nominada a los Premios Goya 2020 como mejor película iberoamericana y al Colón de Oro en el Festival de Cine Iberoamericano de Huelva.

Enlaces de interés :

https://www.libropatas.com/libros-literatura/la-vida-novelesca-de-florbela-espanca/

El «diario del último año» de Florbela Espanca

Florbela Espanca, la poetisa del amor

https://www.europasur.es/festivalhuelva/historia-poetisa-Florbela_0_645835433.html

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