11 Poemas de Ana Paula Tavares 

As coisas delicadas tratam-se com cuidado
(Filosofia cabinda)


Desossaste-me
cuidadosamente
inscrevendo-me
no teu universo
como uma ferida
uma prótese perfeita
conduziste todas as minhas veias
para que desaguassem
nas tuas
sem remédio
meio pulmão respira em ti
e outro, que me lembre
mal existe

Hoje levantei-me cedo

pintei de tacula e água fria
o corpo acesso
não bato a manteiga
não ponho o cinto
VOU
para o sul saltar o cercado

De: «Ritos de passagem». Luanda; União dos Escritores Angolanos, 1985, p. 30-31.

A Anona 

Tem mil e quarenta e cinco
Caroços
Cada um com uma circunferência
À volta

Agrupam-se todos
(arrumadinha)
No pequeno útero verde
Da casca

De: «Ritos de passagem». Luanda; União dos Escritores Angolanos,1985

Vieram Muitos

A massambala cresce a olhos nus.
Vieram muitos
à procura de pasto
traziam olhos rasos da poeira e da sede
e o gado perdido.
Vieram muitos
à promessa de pasto
de capim gordo
das tranqüilas águas do lago.
Vieram de mãos vazias
mas olhos de sede
e sandálias gastas
da procura de pasto.
Ficaram pouco tempo
mas todo o pasto se gastou na sede
enquanto a massambala crescia
a olhos nus.
Partiram com olhos rasos de pasto
limpos de poeira
levaram o gado gordo e as raparigas.




De: «O lago da lua». Lisboa: Editorial Caminho, 1999

Vinieron Muchos…

La massambala crece a mirada desnuda.
Vinieron muchos
en búsqueda del pasto
traían ojos llenos de lágrimas por el polvo y la sed
y el ganado perdido.
Vinieron muchos
con la promesa de pasto
de césped gordo
de las tranquilas aguas del lago.
Vinieron de manos vacías
pero ojos de sed
y sandalias gastadas
en la búsqueda de pasto.
Se quedaron poco tiempo
pero todo el pasto se gastó en la sed
mientras la massambala crecía
a mirada desnuda.
Partieron con los ojos llenos de pasto
limpios de polvo
llevaron el ganado gordo y las muchachas.




Traducción: Tania Alegria.

Perguntas-me do silêncio
eu digo
meu amor que sabes tu
do eco do silêncio
como podes pedir-me palavras
e tempo
se só o silêncio permite
ao amor mais limpo
erguer a voz
no rumor dos corpos


De: «O lago da lua». Lisboa: Editorial Caminho, 1999


Tratem-me com a massa


“Amparai-me com perfumes, confortai-me com maçãs que estou ferida de amor…”
Cântico dos Cânticos

Tratem-me com a massa
de que são feitos os óleos
p’ra que descanse, oh mães
Tragam as vossas mãos, oh mães,
untadas de esquecimento
E deixem que elas deslizem
pelo corpo, devagar
Dói muito, oh mães
É de mim que vem o grito.
Aspirei o cheiro da canela
e não morri, oh mães.
Escorreu-me pelos lábios o sangue do mirangolo
e não morri, oh mães.
De lábios gretados não morri, oh mães
Encostei à casca rugosa do baobabe
a fina pele do meu peito
dessas feridas fundas não morri, oh mães
Venham, oh mães, amparar-me nesta hora
Morro porque estou ferida de amor 

De: «O lago da lua». Lisboa: Editorial Caminho, 1999

Canto de nascimento 

Aceso está o fogo
prontas as mãos

o dia parou a sua lenta marcha
de mergulhar na noite.

As mãos criam na água
uma pele nova

panos brancos
uma panela a ferver
mais a faca de cortar

Uma dor fina
a marcar os intervalos de tempo
vinte cabaças deleite
que o vento trabalha manteiga

a lua pousada na pedra de afiar

Uma mulher oferece à noite
o silêncio aberto
de um grito
sem som nem gesto
apenas o silêncio aberto assim ao grito
solto ao intervalo das lágrimas

As velhas desfiam uma lenta memória
que acende a noite de palavras
depois aquecem as mãos de semear fogueiras

Uma mulher arde
no fogo de uma dor fria
igual a todas as dores
maior que todas as dores.

Esta mulher arde
no meio da noite perdida
colhendo o rio
enquanto as crianças dormem
seus pequenos sonhos de leite.

De: «O lago da lua». Lisboa: Editorial Caminho, 1999

Amargos como os frutos


Amado, por que voltas
com a morte nos olhos
e sem sandálias
como se um outro te habitasse
num tempo
para além
do tempo todo
Amado, onde perdeste tua língua de metal
a dos sinais e do provérbio
com o meu nome inscrito
 Onde deixaste a tua voz
 macia de capim e veludo
 semeada de estrelas
Amado, meu amado,
o que regressou de ti
é a tua sombra
dividida ao meio
é um antes de ti
as falas amargas

como os frutos. 

De: «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Lisboa: Editorial Caminho, 2001

Amargos como los frutos

Amado, porque vuelves
con la muerte en los ojos
y descalzo
como si otro te habitara
en un tiempo
más allá de todo tiempo

Amado, dónde perdiste tu lengua de metal
la de las señales y el proverbio
con mi nombre escrito

dónde dejaste tu voz
suave de hierba y árbol
sembrada de estrellas
Amado, mi amado
lo que regresó de ti
es tu sombra
dividida a la mitad
es un antes de ti
palabras amargas

como los frutos

De: «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Lisboa: Editorial Caminho, 2001

O cercado


De que cor era o meu cinto de missangas, mãe
feito pelas tuas mãos
e fios do teu cabelo
cortado na lua cheia
guardado do cacimbo
no cesto trançado das coisas da avó

Onde está a panela do provérbio, mãe
a das três pernas
e asa partida
que me deste antes das chuvas grandes
no dia do noivado

De que cor era a minha voz, mãe
quando anunciava a manhã junto à cascata
e descia devagarinho pelos dias

Onde está o tempo prometido p’ra viver, mãe
se tudo se guarda e recolhe no tempo da espera
p’ra lá do cercado


De: «Dizes-me coisas amargas como os frutos». Lisboa: Editorial Caminho, 2001.

Boi à Vela 

Os bois nascidos na huíla

são altos, magros

                            navegáveis

de cedo lhes nascem

                           cornos

                           leite

                           cobertura

os cornos são volantes

                                indicam o sul

as patas lavram o solo

deixando espaço para

                                a semente

                                a palavra

                                a solidão.


Matilde Fieschi


Compraste o meu amor…


Compraste o meu amor
Com o vinho dos antigos
Sedas da Índia
anéis de vidro
Sou tua, meu senhor
À segunda, terça, quarta, quinta, sexta-feira
E também preparo funje aos sábados
Não não me peças o domingo
Todos os deuses descansam
E sei também das concubinas
O horário de serviço

De: «Como veias finas na terra». Lisboa: Editorial Caminho, 2010.

É sempre à noite que mais dói…


É sempre à noite que mais dói
Dizia-me o amigo
Chega a febre
O cheiro ácido do pântano
O silêncio gelado dos nossos mortos
A presença inquieta dos outros
O lento movimento das dunas


De: «Como veias finas na terra». Lisboa: Editorial Caminho, 2010.

Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, provincia de Huíla, Angola, 30 de octubre de 1952). Poeta, escritora y docente. Doctora en Antropología de la Historia por la Universidad Nova de Lisboa. Premio Camões 2025. Es considerada una de las grandes voces de la poesía contemporánea de Angola.

Sus padres, un hombre mestizo y una mujer blanca nacida en Angola, vivían en un entorno rural con escasos recursos, por lo que decidieron buscar padrinos de la época colonial para su hija, con la esperanza de que tuviera acceso a una buena educación. Era muy común entre las familias angoleñas de la época, las menos afortunadas, que sus hijos fueran criados por padrinos portugueses más ricos, quienes podían brindarles mayores oportunidades de asistir a la escuela, a la secundaria e incluso a la universidad.

Así, Ana Paula fue criada por sus padrinos portugueses que habían emigrado a Angola en la década de 1920. Eran personas que habían construido fábricas y tiendas en una región que no era la suya. Sin embargo, su madrina, por ejemplo, había recreado, además de la casa, un huerto con todos los árboles típicos de Viseu y todos los animales típicos de su región de origen. En esa casa, rodeada de naranjos, higueras, fresas, etc., creció. De vez en cuando visitaba a sus hermanos y padres.

Ana Paula creció bajo una estricta educación católica en medio de una sociedad profundamente violenta e injusta, donde la división entre blancos y negros era muy evidente y muy marcada por una legislación que otorgaba poder a la comunidad colonial, a la comunidad blanca, y que convertía a todos los demás en indígenas, es decir, en no ciudadanos, ya que ninguno de ellos podía tener un documento de identidad, ninguno de ellos era considerado ciudadano portugués. Para ser ciudadano portugués en aquella época, había que solicitarlo; había que pasar una serie de exámenes. Una persona debía demostrar que hablaba portugués tanto dentro como fuera de casa, que tenía educación, que sabía leer y escribir, que no vivía en una casa de adobe, sino en una casa de ladrillo encalada con jardín, etc. Por lo tanto, se le exigía que imitara el estilo de vida portugués. Estos eran los asimilados.

Sus padrinos se esforzaron al máximo por enseñarle a ser portuguesa, a aprender el idioma portugués, a hablar portugués. Por consiguiente, el uso de cualquier palabra de las lenguas bantúes estaba completamente prohibido. Sin embargo, Ana Paula era consciente de todos los sonidos que llegaban a sus oídos, en especial las voces de las mujeres. No había tenido acceso a ese universo de otros idiomas. Y eso despertó en ella un fuerte deseo de partir, de cruzar la cordillera, de ver cómo era el resto del mundo al otro lado de esa imponente cadena montañosa. Con el paso del tiempo, al no tener la oportunidad de cruzarla, recurrió al aprendizaje de las mismas comunidades que vivían a su alrededor. Absorbió el conocimiento de las mujeres, las voces y los sonidos de la tierra y las lenguas bantúes como una necesidad de identificación con la tierra.

Estudió Historia en la entonces Facultad de Humanidades (actualmente ISCED) y completó sus estudios en Portugal. Posee una maestría en Literatura Africana escrita en portugués. Es doctora en Antropología (Etnografía) por la Facultad de Ciencias Sociales y Humanidades de la Universidad Nova de Lisboa, con una tesis titulada «Historia, Memoria e Identidad: Un estudio sobre las sociedades Lunda y Cokwe de Angola».

El 11 de noviembre de 1975 Angola logró independizarse del Imperio Portugués. Inmediatamente después de la independencia, Tavares se convirtió en delegada cultural de Kwanzaa-Sul (1978 a 1980); técnica superior en el Museo Nacional de Arqueología de Benguela, Angola, de 1980 a 1983; y directora nacional de Patrimonio Cultural en Luanda, de 1985 a 1987. Directora de la Oficina Técnica de la Secretaría de Estado de Cultura en Luanda, de 1987 a 1991.

Aunque escribir fue un proceso mucho anterior, la difusión y la exposición de la autora llegaron después de la independencia nacional (1975). Su primera publicación Ritos de passagem (1985), provocó cierta indignación ya que algunos consideraban que abría una puerta para que las mujeres hablaran de temas que hasta entonces habían sido un universo exclusivamente masculino: «¿Pero cómo se atreve una mujer a hablar del cuerpo? ¿Cómo se atreve una mujer a exponer ese mismo cuerpo? ¿Una mujer se atreve a hablar de traición, dominación, feminismo…?».

En 1992, se mudó a Lisboa y se estableció como escritora y profesora universitaria. Ejerció de Profesora Adjunta en la Universidad Católica Portuguesa de Lisboa, de 1994 a 2000, entre otros cargos.

Participó en numerosos encuentros científicos nacionales e internacionales (conferencias, seminarios y talleres) y fue miembro de comisiones, como la Comisión para la Reestructuración de la Universidad Agostinho Neto, la Comisión para la reestructuración del Ministerio de Cultura y para la elaboración de una propuesta para la creación del Ministerio de Cultura de Angola, y la Comisión para la elaboración del proyecto de fundación de una Facultad de Ciencias Sociales en Angola.

Es autora de diversas publicaciones científicas y obras literarias, incluyendo poesía, crónicas y novelas.

Como poeta y escritora, ha publicado varias obras, entre ellas Ritos de Passagem (1985), O Sangue da Buganvília (1998), O Lago da Lua (1999), Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001, premio de poesía Mário António 2004, otorgado por el Instituto Calouste Gulbenkian Fundación), Ex-votos (Exvotos) (2003) y A Cabeça de Salomé (La Cabeza de Salomé) (2004), Os olhos do homem que chorava no Rio, en colaboración con Manuel Jorge Marmelo (2005), Manual para amantes desesperos (2007), Como velas finas na terra (2010).

Recibió el Premio de Poesía Mário António, otorgado por la Fundación Calouste Gulbenkian, en 2004, el Premio Nacional de Cultura y Artes de Angola (categoría de literatura) en 2007, el Premio Internacional Ceppo/Pistoia, Florencia (2013) y el prestigioso Premio Camões 2025, el más importante en lengua portuguesa. 

Su obra ha sido publicada en antologías en Portugal, Brasil, Francia, Alemania, España y Suecia.

Tavares participó en la película documental Cartas para Angola (2011), dirigida por Coraci Ruiz y Júlio Matos, centrado en Brasil, Angola y Portugal.

Enlaces de interés :

https://www.swissinfo.ch/spa/la-historiadora-y-poeta-angoleña-ana-paula-tavares-gana-el-premio-camões-2025/90136324

https://www.buala.org/en/face-to-face/the-oral-tradition-is-for-me-a-cult-interview-ana-paula-tavares

https://www.buala.org/pt/cara-a-cara/so-consigo-escrever-quando-me-relaciono-com-uma-alma-angolana-entrevista-a-ana-paula-tav

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