Resposta com arte poética
Pergunto como se escreve o poema? E a resposta possível
é escrever o poema. Ele demonstra a sua possibilidade, como se não houvesse nada
antes ou depois do escrevê-lo – nem técnica, nem domínio
de palavras e gramática, ou da sua ausência. Assim, o poema pode
ser construído de um modo que evita todas as ambiguidades da prosa
ou da filosofia, que transporta dentro de si a chave que é preciso abrir
para que um sentido surja – mesmo que o sentido seja aquilo que menos interessa
ao poema. No entanto, sem ele, de que serve escrevê-lo? O que importa
é dizer o que de outro modo não pode ser dito. Escrever o poema, então, é
dizer o que é essencial, distinguindo entre o nada e o tudo que está
em cada poema. Sim: há um ponto de partida. O teu rosto, as tuas
mãos, ou um ramo de árvore que se partiu com o temporal, ou
ainda esse pássaro que nasceu de dentro de um telhado em ruína, como se a casa
abandonada fosse o ventre do mundo celeste. Nada disto, em si, tem um valor
para além daquele que eu lhe dei, ao olhar o mundo, e escolher uma ou outra
de entre as suas imagens. Agora, no poema, elas são outra coisa. Fugiram
da sua própria realidade, como o pássaro que saltou do telhado; e
mesmo que tu existas, com o teu rosto e as tuas mãos, ou a casa continue
ainda mais abandonada, com o inverno que chega, é o poema que dá uma
outra forma ao amor, ao campo, às aves ou ao que tu me disseste,
como se não fosse preciso mais do que isso para que a vida
possa continuar. Assim, escrevo. E não volto a perguntar
como se escreve o poema?
Respuesta con arte poética
Pregunto: ¿cómo se escribe el poema? Y la respuesta posible
es escribir el poema. Demuestra su posibilidad, como si no hubiera nada antes
o después de escribirlo –ni técnica, ni dominio
de palabras y gramática, ni de su ausencia. Así, el poema puede
ser construido de un modo que evita todas las ambigüedades de la prosa
o de la filosofía, que transporta dentro de sí la llave que es preciso abrir
para que un sentido surja –aun si el sentido sea aquello que menos interesa
al poema. Sin embargo, sin él ¿de qué sirve escribir el poema? Lo que importa
es decir lo que de otro modo no puede ser dicho. Escribir el poema, entonces, es decir
lo esencial, distinguiendo entre la nada y el todo que está
en cada poema. Sí: hay un punto de partida. Tu rostro, tus
manos o una rama de árbol que se partió con el temporal, o
aun ese pájaro que nació en un tejado en ruinas, como si la casa
abandonada fuera el vientre del mundo celeste. Nada de esto, en sí, tiene un valor
más allá del que yo le dé, al mirar el mundo, y escoger una u otra
entre sus imágenes. Ahora, en el poema, ellas son otra cosa. Huyeron
de su propia realidad, como el pájaro que saltó del tejado; y
aunque que tú existas, con tu rostro y tus manos, o que la casa continúe
aún abandonada, como el invierno que llega, es el poema el que da
otra forma al amor, al campo, a las aves o a lo que tú me dijiste,
como si no fuera necesario más que eso para que la vida
pueda continuar. Así, escribo. Y no vuelvo a preguntar
¿cómo se escribe el poema?
De: Noçao do poema(1972)

Luta de classes
Nem todos os que construíram as catedrais viram
o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,
e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,
pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão
o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os
que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e
viram o júbilo das madrugadas primaveris; os
que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes
o gesto alucinado dos demónios, trocaram
obscenidades e doenças. No entanto, a catedral
é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,
nasceu de uma visão do absoluto, não pensa
em pormenores. Que importa os que trabalharam
na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso
desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê
é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,
conclui-se, é da desigualdade que nasce
a harmonia; e é a desordem humana que faz brotar,
do nada, tudo o que admiramos.
Lucha de clases
No todos los que construyeron las catedrales vieron lo mismo.
Unos irguieron torres y pináculos a la luz del sol
y llegaron al cielo; otros, hundidos en las criptas,
pintaron infiernos a la luz de las velas, dejando en el suelo
el lugar para los más anónimos de los muertos. Los
que llegaron a la cima, recibieron la mirada divina y
vieron el júbilo de las madrugadas primaverales; los
que quedaron en el fondo, arrancando a la humedad de las paredes
el gesto alucinado de los demonios, intercambiaron
obscenidades y enfermedades. No obstante, la catedral
es única, y quien la visita, apreciando la totalidad que, dicen,
nació de una visión del absoluto, no piensa
en pormenores. ¿Qué importancia tienen para nosotros
los que trabajaron en la sombra, perdiendo la luz de los ojos con el
minucioso dibujo, arrancando a lo oscuro, si lo que hoy se ve
es ese contorno en que la piedra trabaja el cielo? Así,
se concluye, que es de la desigualdad que nace
la armonía, y es el desorden humano que hace brotar,
de la nada, todo lo que admiramos

FOTO: Daniel Mordzinski
As santas místicas
Há mulheres resplandecentes sob o manto
que as esconde. Os seus corpos são brancos como o linho
áspero em que se deitam, e a sua pele é macia
quando o frio da manhã a percorre com as mãos
duras do inverno. Os cabelos negros soltam-se
ao longo das costas, e quando as vemos de frente
são a cortina que lhes esconde os seios. Essas mulheres
sentam-se no banco de pedra junto à vigia
de onde espreitam o mundo. Com os dedos
finos das suas mãos contam os dias que faltam
para o fim da sua eternidade. Quando rezam, de joelhos,
ferem os cotovelos na laje do corredor. Os lábios
murmuram a oração em que pedem a deus
que desça até junto dos seus rostos; e abraçam
a nuvem que se forma quando a humidade
se solta das suas bocas, quando respiram, e o vidro
se embacia para que elas olhem para dentro de si,
e não para fora, onde o céu escurece com as contas
da chuva. E espreito o fundo da sua alma, onde
se abre o caminho do êxtase que as possui.
Las santas místicas
Hay mujeres resplandecientes bajo el manto
que las oculta. Sus cuerpos son blancos como el lino
áspero en que se tienden, y su piel es suave
cuando el frío de la mañana la recorre con las manos
duras del invierno. Sus cabelleras negras se esparcen
a lo largo de la espalda, y cuando las vemos de frente
son la cortina que oculta sus senos. Esas mujeres
se sientan en una banca de piedra junto a la ventana
desde donde observan el mundo. Con los finos
dedos de sus manos cuentan los días que faltan
para el fin de su eternidad. Cuando rezan, arrodilladas,
se lastiman los codos en la piedra del corredor. Sus labios
murmuran la oración con la que piden a dios
que descienda al nivel de sus rostros; y abrazan
la nube que se forma cuando la humedad
se escapa de sus bocas, cuando respiran, y el vidrio
se empaña para que ellas miren dentro de sí,
y no hacia afuera, donde el cielo se oscurece con las razones
de la lluvia. Y observo el fondo de su alma, donde
se abre el camino del éxtasis que las posee.

Para escrever o poema
O poeta quer escrever sobre um pássaro:
e o pássaro foge-lhe do verso.
O poeta quer escrever sobre a maçã: e a maçã
cai-lhe do ramo onde a pousou.
O poeta quer escrever sobre uma flor:
e a flor murcha no jarro da estrofe.
Então, o poeta faz uma gaiola de palavras
para o pássaro não fugir.
Então, o poeta chama pela serpente
para que ela convença Eva a morder a maçã.
Então, o poeta põe água na estrofe
para que a flor não murche.
Mas um pássaro não canta
quando o fecham na gaiola.
A serpente não sai da terra
porque Eva tem medo de serpentes.
E a água que devia manter viva a flor
escorre por entre os versos.
E quando o poeta pousou a caneta,
o pássaro começou a voar,
Eva correu por entre as macieiras
e todas as flores nasceram da terra.
O poeta voltou a pegar na caneta,
escreveu o que tinha visto,
e o poema ficou feito.
Para escribir el poema
El poeta quiere escribir sobre un pájaro:
y el pájaro huye de su verso.
El poeta quiere escribir sobre la manzana:
y la manzana se cae de la rama donde la puso.
El poeta quiere escribir sobre una flor:
y la flor se marchita en el jarrón de la estrofa.
Entonces, el poeta hace una jaula de palabras
para que el pájaro no huya.
Entonces, el poeta llama a la serpiente
para que convenza a Eva de morder la manzana.
Entonces el poeta pone agua en la estrofa
para que no se marchite la flor.
Pero un pájaro no canta
cuando lo encierran en una jaula.
La serpiente no sale de la tierra
porque Eva teme a las serpientes.
Y el agua que debía mantener viva la flor
se escurre por entre los versos.
Y cuando el poeta abandonó la pluma
el pájaro comenzó a volar,
Eva corrió a través del pomar
y todas las flores nacieron de la tierra.
El poeta volvió a tomar su pluma,
escribió lo que había visto
y el poema quedó hecho.

De um lado para o outro
Quando atravessava a rua para ir comprar
o pão, no supermercado, ela vinha em sentido contrário
já com o pão para o pequeno-almoço. Quer fosse
num dia de sol quer fosse num dia de chuva, quer fizesse
frio, quer estivesse calor, fazia o mesmo caminho
ao contrário do meu. Da minha janela, podia
vê-la a preparar o café, ou talvez fosse o chá,
e cortava o pão na tábua que eu via da minha janela,
tomando nota de cada gesto. E quando
acabava de comer e se ia embora, eu ficava
à espera do dia seguinte, para me cruzar
com ela, na rua, repetindo o horário de todos os dias
em que íamos em sentidos diferentes. Um dia,
porém, deixei de a ver; e a janela onde tomava comigo
o pequeno-almoço, sem saber que eu a acompanhava,
da minha janela oposta à sua, ficou vazia – e
desde aí, o meu pequeno-almoço em casa
ganhou um gosto a solidão.
De un lado a otro
Cuando atravesaba la calle para ir a comprar
el pan, en el supermercado, ella venía en el sentido contrario,
ya con el pan para el desayuno. Fuera en
un día de sol, fuera en un día de lluvia; hiciera
frío, hiciera calor, ella recorría el mismo camino
contrario al mío. Desde mi ventana, podía
verla preparando el café, o tal vez fuera el té,
y partía el pan en la mesa que yo veía desde mi ventana,
observando cada gesto. Y cuando
acababa de comer y se iba, yo me quedaba
esperando el día siguiente, para cruzarme
con ella, en la calle, en el mismo horario de todos los días,
yendo ambos en sentidos diferentes. Un día,
sin embargo, dejé de verla; y la ventana donde tomaba conmigo
el desayuno, sin saber que yo la acompañaba,
en mi ventana frente a la suya, se quedó vacía – y
desde ahí, mi desayuno en casa
adquirió un sabor a soledad.

Encantamento
Vi as mulheres
azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo
que traziam de uma infância de magma
calcinado. A água ficava negra, à sua volta;
e os ramos das plantas submersas pelas chuvas
primaveris abraçavam-nas, puxando-as num
estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor
do verso; estendi-as na areia grossa
da margem, vendo as cobras de água fugirem
por entre os canaviais. Espreitei-lhes
o sexo por onde escorria o líquido branco
de um início. Pude dizer-lhes que as amava,
abraçando-as, como se estivessem vivas; e
ouvi um restolhar de crianças por entre
os arbustos, repetindo-me as frases com uma
entoação de riso. Onde estão essas mulheres?
Em que leito de rio dormem os seus corpos,
que os meus dedos procuram num gesto
vago de inquietação? Navego contra a corrente;
procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.
Encantamiento
Ví las mujeres azules del equinoccio
volando como pájaros ciegos; y sus cuerpos
sin alas ahogándose, despacio, en los lagos
volcánicos. Sus labios vomitaban el fuego
que traían de una infancia de magma
calcinado. El agua estaba negra, a su vuelta;
y los ramos de las plantas sumergidas por las lluvias
primaverales las abrazaban, empujándolas en un
estertor de imágenes. Las tapé con el cobertor
del verso; las extendí en la arena gruesa
de la orilla, viendo las culebras de agua huir
por entre los cañaverales. Les aceché
el sexo por donde se escurría el líquido blanco
de un inicio. Pude decirles que las amaba,
abrazándolas, como si estuviesen vivas; y
oí un rastrojar de criaturas por entre
los arbustos, repitiéndome las frases con una
entonación de risa: ¿Dónde están esas mujeres?
¿En qué lecho de río duermen sus cuerpos,
que mis dedos buscan en un gesto
vago de inquietud? Navego contra corriente;
busco la fuente, el silencio frío de una génesis.

Artesanato de luz
Trabalhei a arte do relâmpago, arrancando
as suas pontas ao céu. Estendi um feixe de cinzas ainda
quente sobre o cortinado da tarde. Vi a lava
decompor-se num esgar de fogo, e segui esse negro rio
até ao estuário dos teus braços.
«Tudo podia ter nascido na lentidão
dos lábios, na execução perfeita de um murmúrio»,
disseste-me. Podíamos ter discutido
até ao fim da frase a sua lógica, como se o amor
não emudecesse a razão.
Porém, ouvi apenas o eco de uma voz, e a sombra
do seu som a somar-se a um cristal de luzes
no palco de buganvílias em que nos juntámos. E
entreabri uma persiana de estrelas sob as tuas pálpebras,
vendo correr a sua luz num desfiladeiro de axilas.
Quem atravessa os olivais da memória, levando
no dorso das mulas uma oferenda de vidas que caíram,
gota a gota, de um alambique de instantes? Em vão estendi
as mãos para os apanhar, e encher as mãos com o sumo
de cada minuto de êxtase, como se esse tempo não tivesse
passado, além, onde a vista se perde
para lá das últimas pontes.
Luz artesanal
Trabajé el arte del relámpago, arrancando
sus puntas del cielo. Extendí un haz de cenizas aún
tibias sobre las cortinas de la tarde. Vi la lava
descomponerse en una sonrisa de fuego, y seguí aquel río negro
hasta el estuario de tus brazos.
«Todo podía haber nacido en la lentitud
de los labios, en la ejecución perfecta de un murmullo»,
me dijiste. Podíamos haber discutido
sobre su lógica hasta el final de esta frase, como si el amor
no enmudeciera la razón.
Sin embargo, apenas escuché el eco de una voz, y la sombra
de su sonido asomarse a un cristal de luces
en el palco de las buganvillas donde nos unimos. Y
entreabrí una persiana de estrellas bajo tus párpados,
viendo correr su luz en la cavidad de las axilas.
¿Quién cruza los olivares de la memoria, llevando
a lomos de las mulas una ofrenda de vidas que caerán
gota a gota, de un alambique de instantes? En vano extendí
las manos para capturarlas, y henchir las manos con el jugo
de cada minuto de éxtasis, como si ese tiempo no hubiera
pasado, más allá, donde la vista se pierde
más allá de los últimos puentes.

Poética
Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale
do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e
do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo
do lixo das coisas banais, das contaminações de quem
só olha para o chão; um poema onde o sublime nos
toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema
que escrevo na página branca como a parede que
acabou de ser caiada, com as suas imperfeições
apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol
a gritar pela vida. E quero que este poema desça
às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde
dormem os que não têm teto nem esperança,
às mesas sujas dos restos da madrugada, às
esquinas onde a mulher da noite espera o último
cliente, ao desespero dos que não sabem para onde
fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto
a beleza que sobrevive às frases comuns, às
palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,
aos versos deslavados de quem nunca ouviu
o grito do anjo. E digo isto para que fique, no
poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.
Poética
Quiero que mi poema hable de barcos y de azul, hable
del mar y del cuerpo que lo busca, hable de pájaros y
del cielo en que habitan. Quiero un poema puro, limpio
de la basura de las cosas banales, de las contaminaciones de quien
sólo mira por tierra; un poema donde lo sublime nos toque,
y lo poético sea la palabra llena. Es este poema
que escribo en la página blanca como la pared que
acabó de ser encalada, con sus imperfecciones
apagadas por la luz del día, y un reflejo del sol
gritando por la vida. Y quiero que este poema descienda
a las cavas donde la miseria se acumula, a los bancos donde
duermen los que no tienen ni techo ni esperanza,
a las mesas sucias con los restos del alba, a los
rincones donde la mujer de la noche espera al último
cliente, a la desesperación de los que no saben por dónde
huir cuando la muerte golpea a la puerta. Y canto a
la belleza que sobrevive a las frases comunes, a las
palabras ensuciadas por lo cotidiano de los mediocres,
a los versos descoloridos de quien nunca escuchó
el grito del ángel. Y digo esto para que quede, en el
poema, como la piedra tallada por un fuego divino.

Nuno Júdice recibe el Premio Reina Sofia de manos de la propia Reina (2013)
Dizer o nome
Ah, esses nomes, os nomes que agora regressam
como se ainda os chamasse, como se um nome fosse
um corpo, um nome tão longe de quem tinha
esse nome, e se perdeu nalgum canto da vida, nalgum
corredor de sentimentos desencontrados, nalguma rua
tão longa que não se sabe onde acaba, e em cada
porta faltava o número que tinha o nome
procurado… O nome dito devagar, à noite,
para o não esquecermos, ou apenas dito
para dentro, para que a palavra ganhe outro
corpo, no fundo de nós, e o nome guardado
apague todos os nomes, todos os corpos,
todos os instantes em que, por trás do nome
que foi dito, um rosto surgia a dar uma forma
a esse nome, e só ao dizê-lo essa forma tinha
a substância que lhe pertencia, talvez o amor,
talvez o desejo, talvez a procura de que um nome,
só por ser dito, concentrasse nele o sonho
que um dia se esfumaria, como se o nome se
diluísse nas suas sílabas, e não conseguíssemos
reconstituí-lo a partir de vogais e consoantes
perdidas no chão da memória, enquanto as mãos
vazias procuravam a pele de um nome, um nome
apenas, e tão breve como breve é o tempo
do nome que damos ao amor, quando
nele encontramos o calor do nome murmurado
ao ouvido de quem se ama.
Pronunciar el nombre
Ah, esos nombres, los nombres que ahora regresan
como si todavía los llamase, como si un nombre fuera
un cuerpo, un nombre tan lejano de quien tiene
ese nombre, y se pierde en algún canto de la vida, en algún
corredor de sentimientos no correspondidos, en alguna calle
tan larga que no se sabe dónde finaliza, y en cada
puerta falta el número que tenía el nombre
buscado… El nombre dicho despacio, por la noche,
para no olvidarlo, o apenas dicho
para adentro, para que la palabra gane otro
cuerpo, en el fondo de nosotros, y el nombre recordado
apague todos los nombres, todos los cuerpos,
todos los instantes en que, por detrás del nombre
que fue dicho, un rostro surja para dar una forma
a ese nombre, y sólo al nombrarlo esa forma tenga
la sustancia que le pertenece, tal vez el amor,
tal vez el deseo, tal vez la búsqueda de que un nombre,
sólo por ser dicho, concentrase en él el sueño
que un día se esfumará, como si el nombre se
diluyese en sus sílabas, y no consiguiésemos
reconstituirlo a partir de vocales y consonantes
perdidas en la tierra de la memoria, mientras las manos
vacías buscaban la piel de un nombre, un nombre
apenas, tan breve como breve es el tiempo
del nombre que damos al amor, cuando
en él encontramos el calor del nombre murmurado
al oído de quien se ama.
De: O Mito de Europa (2017)

O trabalho poético
Eis o que pretendo: um canto
que sustente o desejo de ser tal como
a trave sustenta o tecto da casa. Não exijo
mais; e quando o dia chegar
ao fim, e a noite me encher com o seu
silêncio, basta que ouça o eco dessa voz
remota como bálsamo
que se derrama no espírito. Escrevo,
então, o que ela me diz, e aplico-me
na caligrafia da solidão. Por vezes, é melhor
que o sentido nasça da obscuridade, numa
destilação de palavras, gota a gota; e
o álcool do seu mistério embriagar-me-á
a alma, e correr-me-á pelo corpo até
chegar ao coração, acendendo
o poema com o seu glóbulo
de luz.
El trabajo poético
Esto es lo que pretendo: un canto
que sostenga el deseo de ser tal como
la viga que sostiene el techo de la casa. No exijo
más; y cuando el día llegue
al fin, y la noche me llene con su
silencio, basta que oiga el eco de esa voz
remota como bálsamo
que se derrama en el espíritu. Escribo,
entonces, lo que ella me dice, y me aplico
en la caligrafía de la soledad. A veces, es mejor
que el sentido nazca de la oscuridad, en una
destilación de palabras, gota a gota; y
el alcohol de su misterio me embriagará
el alma, y recorrerá mi cuerpo hasta
llegar a mi corazón, encendiendo
el poema con su glóbulo
de luz.
De: O Mito de Europa (2017)

Oração Cósmica
Una mujer y un hombre arden en su silencio.
Antonio Colinas
No corpo da nave onde um deus se esconde,
sob a cúpula de um céu inscrito na pedra, leio
as páginas do livro do tempo. Por elas
passam as paisagens em que o sol e a chuva
alternam, e nos seus parágrafos ecoa
um diálogo de vivos e de mortos que se
perderam nos desfiladeiros da memória.
E fecho o livro, ouvindo os passos de
quem me irá dar, com as suas mãos,
a oferenda de um bordado de fogo
para acender o horizonte. É com ele que
se iluminam os vitrais em que surge
o rosto em que, da transparência dos olhos,
eu vejo cair uma gota de infinito.
Oración Cósmica
Una mujer y un hombre arden en su silencio.
Antonio Colinas
En el cuerpo de la nave donde se esconde un dios,
bajo la bóveda de un cielo inscrito en piedra, leo
las páginas del libro del tiempo. Por ellas
pasan los paisajes en los que el sol y la lluvia
se alternan, y en sus párrafos resuena
un diálogo de vivos y muertos que se
perdieron en los barrancos de la memoria.
Y cierro el libro, escuchando los pasos de
quien me ofrecerá, con sus manos,
un bordado de fuego
para iluminar el horizonte. Es con él que
se iluminan los vitrales donde surge
el rostro en el que, desde la transparencia de los ojos,
veo caer una gota de infinito.

Nuno Manuel Gonçalves Júdice Glória. (Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de marzo de 2024). Poeta, novelista, dramaturgo, editor y ensayista. Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana 2013.
A los cuatro años se mudó a Lisboa, donde cursó toda su educación pero siempre pasó sus vacaciones en el Algarve que marcan muchos de sus poemas. Mexilhoeira Grande, Portimão y la «Casa Inglesa», la vida en el campo, el mar: todo ello impregna su poesía.
Terminó el bachillerato en 1966 y viajó a París durante un mes con Luís Miguel Cintra (actor y director portugués). Durante este viaje, a los 17 años, tuvo la oportunidad de visitar no solo el Museo del Louvre, sino también galerías y otros museos franceses. Aquel primer viaje a París marcó a Nuno Júdice. El poema «Homenaje a Matta Echaurren» (que supuestamente escribió tras ver un cuadro del artista chileno Roberto Matta en París), publicado en un periódico de Coimbra en 1969, data de este periodo.
En 1989 se Licencia en Filología Románica por Facultad de Letras de la Universidad de Lisboa y obtiene el Doctorado por la Facultad de Ciencias Sociales y Humanas de la Universidad Nova de Lisboa, con una tesis sobre literatura medieval « El espacio del cuento en el texto medieval». Se desempeñó como profesor de Literatura Comparada en la Universidad Nova de Lisboa entre 1976 y 2015. Fué diplomático en París, donde ejerció como Consejero Cultural de la Embajada de Portugal desde 1997, y ocupó la jefatura del Instituto Camões hasta 2004.
En 1972 publicó su primer libro de poemas Noçao do poema. Posteriormente ha publicado Crítica Doméstica dos Paralelipípedos (1973), El pavo real sonoro (1973), Las innumerables aguas (1974), Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), Nos Braços da Exígua Luz (1976), O Voo de Igitur Num Copo de Dados (1981), A Partilha dos Mitos (1982), Lira de Liquen (1986),(Premio del Club PEN portugués), A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de sombras (1989), Obra poética 1972-1985 (1991), Meditação sobre Ruínas (1994), (Gran Premio de Poesía de la Asociación de Escritores Portugueses, 1995), O Movimento do Mundo (1996), A Fonte da Vida (1997), Raptos/Enlévements/Kidnappings (1998, poemas escolhidos, com ilustrações de Jorge Martins), Teoria Geral do Sentimento (1999), Linhas de Água (2000), A Árvore dos Milagres (2000), O Mito de Europa (2017), La pura inscripción del amor (2018), la antologia La maleta del poeta( Trilce Ediciones, Mexico 2018), Regreso a un entorno campestre, 2020, por el cual obtiene el galardón de la APE. El último libro de poesía de Nuno Júdice, «Uma Colheita de Silêncios» (Una cosecha de silencios), se publicó en marzo de 2023.
Algunos de sus poetas preferidos son Rimbaud, Baudelaire, St. John Perse y André Breton. Entre los portugueses Ruy Belo, Al Berto, Ramos Rosa o Eugenio de Andrade y Jorge de Sena.
Como novelista ha publicado Plâncton (1981), A Manta Religiosa (1982), Adágio (1989),Vésperas de Sombra (1998), O anjo da tempestade (2004), A Implosão (2014) ou O Café de Lenine (2019).
Como crítico e investigador literario, especializado en la época modernista portuguesa, ha publicado: Poesía Futurista Portuguesa (1981), A Era do «Orpheu» (1986) y los prólogos a las reediciones de las revistas Portugal Futurista, Centauro y Sudeste (SW).
También es autor de varias obras de teatro, y sus libros han sido traducidos al español, italiano, inglés, búlgaro, holandés, sueco, chino, israelí, albanés, griego, checo, árabe (Libano y Marruecos), danés y francés.
A lo largo de su vida, Nuno Júdice mantuvo contacto con artistas visuales, especialmente pintores, pero también escultores y fotógrafos, y así conoció e interactuó con artistas como Jorge Martins, Rui Chafes, Graça Morais, Manuel Amado y Júlio Pomar. A partir de 1989, cuando sus poemas comenzaron a publicarse en francés, fotógrafos y artistas franceses (como Julie Ganzin o Colette Deblé), así como editores de arte en Francia, le pidieron que publicara sus poemas en diálogo con obras de arte.
En 2023, Nuno Júdice recibió una invitación de Donatien Grau, quien preparaba un proyecto en el Museo del Louvre para publicar poemas inspirados en el propio museo o en las obras expuestas allí. Esto dio como resultado el libro «100 Poètes d’aujourd’hui: Poésie du Louvre» (100 poetas de hoy: Poesía del Louvre), en el que Nuno Júdice contribuyó con el poema «A Inspiração do Poeta» (La inspiración del poeta), junto a nombres como Tahar Ben Jelloun, Jon Fosse, Hélène Dorion y Jacques Darras.
Nuno Júdice también dibujó, creó collages y fotografió, además de su producción poética. Estas obras se encuentran en más de 20 cuadernos inéditos de su colección.
Recibió, entre otros reconocimientos, el Premio de poesía Pablo Neruda (1975), el Premio Pen Club (1985), el Premio D. Dinis de la Fundación Mateus (1990), el Premio Aristeion de Literatura Europea (1994) de la Asociación Portuguesa de Escritores como finalista por Meditação sobre Ruínas, el Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (2013) y el Premio Iberoamericano Ramón López Velarde (2023).
Nuno Júdice falleció en Lisboa el 17 de marzo de 2024. Tenía 74 años.
Enlaces de interés :
https://premioreinasofia.usal.es/nuno-judice
https://www.portugalresident.com/es/algarve-poet-nuno-judice-dies-at-age-74
https://antena2.rtp.pt/em-antena/cultura/nuno-judice-1949-2024
Entrevista: Hernando Garza




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