11 Poemas de Nuno Judice

Resposta com arte poética

Pergunto como se escreve o poema? E a resposta possível

é escrever o poema. Ele demonstra a sua possibilidade, como se não houvesse nada

antes ou depois do escrevê-lo – nem técnica, nem domínio

de palavras e gramática, ou da sua ausência. Assim, o poema pode

ser construído de um modo que evita todas as ambiguidades da prosa

ou da filosofia, que transporta dentro de si a chave que é preciso abrir

para que um sentido surja – mesmo que o sentido seja aquilo que menos interessa

ao poema. No entanto, sem ele, de que serve escrevê-lo? O que importa

é dizer o que de outro modo não pode ser dito. Escrever o poema, então, é

dizer o que é essencial, distinguindo entre o nada e o tudo que está

em cada poema. Sim: há um ponto de partida. O teu rosto, as tuas

mãos, ou um ramo de árvore que se partiu com o temporal, ou

ainda esse pássaro que nasceu de dentro de um telhado em ruína, como se a casa

abandonada fosse o ventre do mundo celeste. Nada disto, em si, tem um valor

para além daquele que eu lhe dei, ao olhar o mundo, e escolher uma ou outra

de entre as suas imagens. Agora, no poema, elas são outra coisa. Fugiram

da sua própria realidade, como o pássaro que saltou do telhado; e

mesmo que tu existas, com o teu rosto e as tuas mãos, ou a casa continue

ainda mais abandonada, com o inverno que chega, é o poema que dá uma

outra forma ao amor, ao campo, às aves ou ao que tu me disseste,

como se não fosse preciso mais do que isso para que a vida

possa continuar. Assim, escrevo. E não volto a perguntar

como se escreve o poema?

Respuesta con arte poética

Pregunto: ¿cómo se escribe el poema? Y la respuesta posible

es escribir el poema. Demuestra su posibilidad, como si no hubiera nada antes

o después de escribirlo –ni técnica, ni dominio

de palabras y gramática, ni de su ausencia. Así, el poema puede

ser construido de un modo que evita todas las ambigüedades de la prosa

o de la filosofía, que transporta dentro de sí la llave que es preciso abrir

para que un sentido surja –aun si el sentido sea aquello que menos interesa

al poema. Sin embargo, sin él ¿de qué sirve escribir el poema? Lo que importa

es decir lo que de otro modo no puede ser dicho. Escribir el poema, entonces, es decir

lo esencial, distinguiendo entre la nada y el todo que está

en cada poema. Sí: hay un punto de partida. Tu rostro, tus

manos o una rama de árbol que se partió con el temporal, o

aun ese pájaro que nació en un tejado en ruinas, como si la casa

abandonada fuera el vientre del mundo celeste. Nada de esto, en sí, tiene un valor

más allá del que yo le dé, al mirar el mundo, y escoger una u otra

entre sus imágenes. Ahora, en el poema, ellas son otra cosa. Huyeron

de su propia realidad, como el pájaro que saltó del tejado; y

aunque que tú existas, con tu rostro y tus manos, o que la casa continúe

aún abandonada, como el invierno que llega, es el poema el que da

otra forma al amor, al campo, a las aves o a lo que tú me dijiste,

como si no fuera necesario más que eso para que la vida

pueda continuar. Así, escribo. Y no vuelvo a preguntar

¿cómo se escribe el poema?

De: Noçao do poema(1972)

Luta de classes

Nem todos os que construíram as catedrais viram

o mesmo. Uns, ergueram torres e pináculos, à luz do sol,

e chegaram ao céu; outros, metidos nas criptas,

pintaram infernos à luz de velas, deixando no chão

o lugar para os mais anónimos dos mortos. Os

que chegaram ao cimo, receberam o olhar divino e

viram o júbilo das madrugadas primaveris; os

que ficaram no fundo, arrancando à humidade das paredes

o gesto alucinado dos demónios, trocaram

obscenidades e doenças. No entanto, a catedral

é única; e quem a visita, apreciando a totalidade que, dizem,

nasceu de uma visão do absoluto, não pensa

em pormenores. Que importa os que trabalharam

na sombra, perdendo a luz dos olhos com o minucioso

desenho arrancando à treva, se o que hoje se vê

é esse contorno em que a pedra trabalha o céu? Assim,

conclui-se, é da desigualdade que nasce

a harmonia; e é a desordem humana que  faz brotar,

do nada, tudo o que admiramos.

Lucha de clases

No todos los que construyeron las catedrales vieron lo mismo.

Unos irguieron torres y pináculos a la luz del sol

y llegaron al cielo; otros, hundidos en las criptas,

pintaron infiernos a la luz de las velas, dejando en el suelo

el lugar para los más anónimos de los muertos. Los

que llegaron a la cima, recibieron la mirada divina y

vieron el júbilo de las madrugadas primaverales; los

que quedaron en el fondo, arrancando a la humedad de las paredes

el gesto alucinado de los demonios, intercambiaron

obscenidades y enfermedades. No obstante, la catedral

es única, y quien la visita, apreciando la totalidad que, dicen,

nació de una visión del absoluto, no piensa

en pormenores. ¿Qué importancia tienen para nosotros

los que trabajaron en la sombra, perdiendo la luz de los ojos con el

minucioso dibujo, arrancando a lo oscuro, si lo que hoy se ve

es ese contorno en que la piedra trabaja el cielo? Así,

se concluye, que es de la desigualdad que nace

la armonía, y es el desorden humano que hace brotar,

de la nada, todo lo que admiramos

FOTO: Daniel Mordzinski

As santas místicas

Há mulheres resplandecentes sob o manto

que as esconde. Os seus corpos são brancos como o linho

áspero em que se deitam, e a sua pele é macia

quando o frio da manhã a percorre com as mãos

duras do inverno. Os cabelos negros soltam-se

ao longo das costas, e quando as vemos de frente

são a cortina que lhes esconde os seios. Essas mulheres

sentam-se no banco de pedra junto à vigia

de onde espreitam o mundo. Com os dedos

finos das suas mãos contam os dias que faltam

para o fim da sua eternidade. Quando rezam, de joelhos,

ferem os cotovelos na laje do corredor. Os lábios

murmuram a oração em que pedem a deus

que desça até junto dos seus rostos; e abraçam

a nuvem que se forma quando a humidade

se solta das suas bocas, quando respiram, e o vidro

se embacia para que elas olhem para dentro de si,

e não para fora, onde o céu escurece com as contas

da chuva. E espreito o fundo da sua alma, onde

se abre o caminho do êxtase que as possui.

Las santas místicas

Hay mujeres resplandecientes bajo el manto

que las oculta. Sus cuerpos son blancos como el lino

áspero en que se tienden, y su piel es suave

cuando el frío de la mañana la recorre con las manos

duras del invierno. Sus cabelleras negras se esparcen

a lo largo de la espalda, y cuando las vemos de frente

son la cortina que oculta sus senos. Esas mujeres

se sientan en una banca de piedra junto a la ventana

desde donde observan el mundo. Con los finos

dedos de sus manos cuentan los días que faltan

para el fin de su eternidad. Cuando rezan, arrodilladas,

se lastiman los codos en la piedra del corredor. Sus labios

murmuran la oración con la que piden a dios

que descienda al nivel de sus rostros; y abrazan

la nube que se forma cuando la humedad

se escapa de sus bocas, cuando respiran, y el vidrio

se empaña para que ellas miren dentro de sí,

y no hacia afuera, donde el cielo se oscurece con las razones

de la lluvia. Y observo el fondo de su alma, donde

se abre el camino del éxtasis que las posee.

Para escrever o poema

O poeta quer escrever sobre um pássaro:

e o pássaro foge-lhe do verso.

O poeta quer escrever sobre a maçã: e a maçã 

cai-lhe do ramo onde a pousou.

O poeta quer escrever sobre uma flor: 

e a flor murcha no jarro da estrofe.

Então, o poeta faz uma gaiola de palavras 

para o pássaro não fugir.

Então, o poeta chama pela serpente 

para que ela convença Eva a morder a maçã.

Então, o poeta põe água na estrofe 

para que a flor não murche.

Mas um pássaro não canta 

quando o fecham na gaiola.

A serpente não sai da terra 

porque Eva tem medo de serpentes.

E a água que devia manter viva a flor 

escorre por entre os versos.

E quando o poeta pousou a caneta, 

o pássaro começou a voar, 

Eva correu por entre as macieiras 

e todas as flores nasceram da terra.

O poeta voltou a pegar na caneta, 

escreveu o que tinha visto, 

e o poema ficou feito.

Para escribir el poema

El poeta quiere escribir sobre un pájaro:

y el pájaro huye de su verso.

El poeta quiere escribir sobre la manzana: 

y la manzana se cae de la rama donde la puso.

El poeta quiere escribir sobre una flor: 

y la flor se marchita en el jarrón de la estrofa.

Entonces, el poeta hace una jaula de palabras 

para que el pájaro no huya.

Entonces, el poeta llama a la serpiente 

para que convenza a Eva de morder la manzana.

Entonces el poeta pone agua en la estrofa 

para que no se marchite la flor.

Pero un pájaro no canta 

cuando lo encierran en una jaula.

La serpiente no sale de la tierra 

porque Eva teme a las serpientes.

Y el agua que debía mantener viva la flor 

se escurre por entre los versos.

Y cuando el poeta abandonó la pluma 

el pájaro comenzó a volar, 

Eva corrió a través del pomar 

y todas las flores nacieron de la tierra.

El poeta volvió a tomar su pluma, 

escribió lo que había visto 

y el poema quedó hecho.

De um lado para o outro

Quando atravessava a rua para ir comprar

o pão, no supermercado, ela vinha em sentido contrário

já com o pão para o pequeno-almoço. Quer fosse

num dia de sol quer fosse num dia de chuva, quer fizesse

frio, quer estivesse calor, fazia o mesmo caminho

ao contrário do meu. Da minha janela, podia

vê-la a preparar o café, ou talvez fosse o chá,

e cortava o pão na tábua que eu via da minha janela,

tomando nota de cada gesto. E quando

acabava de comer e se ia embora, eu ficava

à espera do dia seguinte, para me cruzar

com ela, na rua, repetindo o horário de todos os dias

em que íamos em sentidos diferentes. Um dia,

porém, deixei de a ver; e a janela onde tomava comigo

o pequeno-almoço, sem saber que eu a acompanhava,

da minha janela oposta à sua, ficou vazia – e

desde aí, o meu pequeno-almoço em casa

ganhou um gosto a solidão.

 De un lado a otro

Cuando atravesaba la calle para ir a comprar

el pan, en el supermercado, ella venía en el sentido contrario,

ya con el pan para el desayuno. Fuera en

un día de sol, fuera en un día de lluvia; hiciera

frío, hiciera calor, ella recorría el mismo camino

contrario al mío. Desde mi ventana, podía

verla preparando el café, o tal vez fuera el té,

y partía el pan en la mesa que yo veía desde mi ventana,

observando cada gesto. Y cuando

acababa de comer y se iba, yo me quedaba

esperando el día siguiente, para cruzarme

con ella, en la calle, en el mismo horario de todos los días,

yendo ambos en sentidos diferentes. Un día,

sin embargo, dejé de verla; y la ventana donde tomaba conmigo

el desayuno, sin saber que yo la acompañaba,

en mi ventana frente a la suya, se quedó vacía – y

desde ahí, mi desayuno en casa

adquirió un sabor a soledad.

Encantamento

Vi as mulheres 

azuis do equinócio 

voarem como pássaros cegos; e os seus corpos 

sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos 

vulcânicos. Os seus lábios vomitavam o fogo 

que traziam de uma infância de magma 

calcinado. A água ficava negra, à sua volta; 

e os ramos das plantas submersas pelas chuvas 

primaveris abraçavam-nas, puxando-as num 

estertor de imagens. Tapei-as com o cobertor 

do verso; estendi-as na areia grossa 

da margem, vendo as cobras de água fugirem 

por entre os canaviais. Espreitei-lhes 

o sexo por onde escorria o líquido branco 

de um início. Pude dizer-lhes que as amava, 

abraçando-as, como se estivessem vivas; e 

ouvi um restolhar de crianças por entre 

os arbustos, repetindo-me as frases com uma 

entoação de riso. Onde estão essas mulheres? 

Em que leito de rio dormem os seus corpos, 

que os meus dedos procuram num gesto 

vago de inquietação? Navego contra a corrente; 

procuro a fonte, o silêncio frio de uma génese.

Encantamiento 

Ví las mujeres azules del equinoccio 

volando como pájaros ciegos; y sus cuerpos 

sin alas ahogándose, despacio, en los lagos 

volcánicos. Sus labios vomitaban el fuego 

que traían de una infancia de magma 

calcinado. El agua estaba negra, a su vuelta; 

y los ramos de las plantas sumergidas por las lluvias 

primaverales las abrazaban, empujándolas en un 

estertor de imágenes. Las tapé con el cobertor 

del verso; las extendí en la arena gruesa 

de la orilla, viendo las culebras de agua huir 

por entre los cañaverales. Les aceché 

el sexo por donde se escurría el líquido blanco 

de un inicio. Pude decirles que las amaba, 

abrazándolas, como si estuviesen vivas; y 

oí un rastrojar de criaturas por entre 

los arbustos, repitiéndome las frases con una 

entonación de risa: ¿Dónde están esas mujeres? 

¿En qué lecho de río duermen sus cuerpos, 

que mis dedos buscan en un gesto 

vago de inquietud? Navego contra corriente;

busco la fuente, el silencio frío de una génesis.

Artesanato de luz

Trabalhei a arte do relâmpago, arrancando
as suas pontas ao céu. Estendi um feixe de cinzas ainda
quente sobre o cortinado da tarde. Vi a lava
decompor-se num esgar de fogo, e segui esse negro rio
até ao estuário dos teus braços.

«Tudo podia ter nascido na lentidão
dos lábios, na execução perfeita de um murmúrio»,
disseste-me. Podíamos ter discutido
até ao fim da frase a sua lógica, como se o amor
não emudecesse a razão.

Porém, ouvi apenas o eco de uma voz, e a sombra
do seu som a somar-se a um cristal de luzes
no palco de buganvílias em que nos juntámos. E
entreabri uma persiana de estrelas sob as tuas pálpebras,
vendo correr a sua luz num desfiladeiro de axilas.

Quem atravessa os olivais da memória, levando
no dorso das mulas uma oferenda de vidas que caíram,
gota a gota, de um alambique de instantes? Em vão estendi
as mãos para os apanhar, e encher as mãos com o sumo
de cada minuto de êxtase, como se esse tempo não tivesse

passado, além, onde a vista se perde
para lá das últimas pontes.

Luz artesanal

Trabajé el arte del relámpago, arrancando

sus puntas del cielo. Extendí un haz de cenizas aún

tibias sobre las cortinas de la tarde. Vi la lava

descomponerse en una sonrisa de fuego, y seguí aquel río negro

hasta el estuario de tus brazos.

«Todo podía haber nacido en la lentitud

de los labios, en la ejecución perfecta de un murmullo»,

me dijiste. Podíamos haber discutido

sobre su lógica hasta el final de esta frase, como si el amor

no enmudeciera la razón.

Sin embargo, apenas escuché el eco de una voz, y la sombra

de su sonido asomarse a un cristal de luces

en el palco de las buganvillas donde nos unimos. Y

entreabrí una persiana de estrellas bajo tus párpados,

viendo correr su luz en la cavidad de las axilas.

¿Quién cruza los olivares de la memoria, llevando

a lomos de las mulas una ofrenda de vidas que caerán

gota a gota, de un alambique de instantes? En vano extendí

las manos para capturarlas, y henchir las manos con el jugo

de cada minuto de éxtasis, como si ese tiempo no hubiera

pasado, más allá, donde la vista se pierde

más allá de los últimos puentes.

Poética

Quero que o meu poema fale de barcos e de azul, fale

do mar e do corpo que o procura, fale de pássaros e

do céu em que habitam. Quero um poema puro, limpo

do lixo das coisas banais, das contaminações de quem

só olha para o chão; um poema onde o sublime nos

toque, e o poético seja a palavra plena. É este poema

que escrevo na página branca como a parede que

acabou de ser caiada, com as suas imperfeições

apagadas pela luz do dia, e um reflexo de sol

a gritar pela vida. E quero que este poema desça

às caves onde a miséria se acumula, aos bancos onde

dormem os que não têm teto nem esperança,

às mesas sujas dos restos da madrugada, às

esquinas onde a mulher da noite espera o último

cliente, ao desespero dos que não sabem para onde

fugir quando a morte lhes bate à porta. E canto

a beleza que sobrevive às frases comuns, às

palavras sujas pelo quotidiano dos medíocres,

aos versos deslavados de quem nunca ouviu

o grito do anjo. E digo isto para que fique, no

poema, como a pedra esculpida por um fogo divino.

Poética

Quiero que mi poema hable de barcos y de azul, hable

del mar y del cuerpo que lo busca, hable de pájaros y

del cielo en que habitan. Quiero un poema puro, limpio

de la basura de las cosas banales, de las contaminaciones de quien

sólo mira por tierra; un poema donde lo sublime nos toque,

y lo poético sea la palabra llena. Es este poema

que escribo en la página blanca como la pared que

acabó de ser encalada, con sus imperfecciones

apagadas por la luz del día, y un reflejo del sol

gritando por la vida. Y quiero que este poema descienda

a las cavas donde la miseria se acumula, a los bancos donde

duermen los que no tienen ni techo ni esperanza,

a las mesas sucias con los restos del alba, a los

rincones donde la mujer de la noche espera al último

cliente, a la desesperación de los que no saben por dónde

huir cuando la muerte golpea a la puerta. Y canto a

la belleza que sobrevive a las frases comunes, a las

palabras ensuciadas por lo cotidiano de los mediocres,

a los versos descoloridos de quien nunca escuchó

el grito del ángel. Y digo esto para que quede, en el

poema, como la piedra tallada por un fuego divino.

Nuno Júdice recibe el Premio Reina Sofia de manos de la propia Reina (2013)

Dizer o nome

Ah, esses nomes, os nomes que agora regressam

como se ainda os chamasse, como se um nome fosse

um corpo, um nome tão longe de quem tinha

esse nome, e se perdeu nalgum canto da vida, nalgum

corredor de sentimentos desencontrados, nalguma rua

tão longa que não se sabe onde acaba, e em cada

porta faltava o número que tinha o nome

procurado… O nome dito devagar, à noite,

para o não esquecermos, ou apenas dito

para dentro, para que a palavra ganhe outro

corpo, no fundo de nós, e o nome guardado

apague todos os nomes, todos os corpos,

todos os instantes em que, por trás do nome

que foi dito, um rosto surgia a dar uma forma

a esse nome, e só ao dizê-lo essa forma tinha

a substância que lhe pertencia, talvez o amor,

talvez o desejo, talvez a procura de que um nome,

só por ser dito, concentrasse nele o sonho

que um dia se esfumaria, como se o nome se

diluísse nas suas sílabas, e não conseguíssemos

reconstituí-lo a partir de vogais e consoantes

perdidas no chão da memória, enquanto as mãos

vazias procuravam a pele de um nome, um nome

apenas, e tão breve como breve é o tempo

do nome que damos ao amor, quando

nele encontramos o calor do nome murmurado

ao ouvido de quem se ama.

Pronunciar el nombre

Ah, esos nombres, los nombres que ahora regresan

como si todavía los llamase, como si un nombre fuera

un cuerpo, un nombre tan lejano de quien tiene

ese nombre, y se pierde en algún canto de la vida, en algún

corredor de sentimientos no correspondidos, en alguna calle

tan larga que no se sabe dónde finaliza, y en cada

puerta falta el número que tenía el nombre

buscado…  El nombre dicho despacio, por la noche,

para no olvidarlo, o apenas dicho

para adentro, para que la palabra gane otro

cuerpo, en el fondo de nosotros, y el nombre recordado

apague todos los nombres, todos los cuerpos,

todos los instantes en que, por detrás del nombre

que fue dicho, un rostro surja para dar una forma

a ese nombre, y sólo al nombrarlo esa forma tenga

la sustancia que le pertenece, tal vez el amor,

tal vez el deseo, tal vez la búsqueda de que un nombre,

sólo por ser dicho, concentrase en él el sueño

que un día se esfumará, como si el nombre se

diluyese en sus sílabas, y no consiguiésemos

reconstituirlo a partir de vocales y consonantes

perdidas en la tierra de la memoria, mientras las manos

vacías buscaban la piel de un nombre, un nombre

apenas, tan breve como breve es el tiempo

del nombre que damos al amor, cuando

en él encontramos el calor del nombre murmurado

al oído de quien se ama.

De: O Mito de Europa (2017)

O trabalho poético

Eis o que pretendo: um canto

que sustente o desejo de ser tal como

a trave sustenta o tecto da casa. Não exijo

mais; e quando o dia chegar

ao fim, e a noite me encher com o seu

silêncio, basta que ouça o eco dessa voz

remota como bálsamo

que se derrama no espírito. Escrevo,

então, o que ela me diz, e aplico-me

na caligrafia da solidão. Por vezes, é melhor

que o sentido nasça da obscuridade, numa

destilação de palavras, gota a gota; e

o álcool do seu mistério embriagar-me-á

a alma, e correr-me-á pelo corpo até

chegar ao coração, acendendo

o poema com o seu glóbulo

de luz.

El trabajo poético

Esto es lo que pretendo: un canto

que sostenga el deseo de ser tal como

la viga que sostiene el techo de la casa. No exijo

más; y cuando el día llegue

al fin, y la noche me llene con su

silencio, basta que oiga el eco de esa voz

remota como bálsamo

que se derrama en el espíritu. Escribo,

entonces, lo que ella me dice, y me aplico

en la caligrafía de la soledad. A veces, es mejor

que el sentido nazca de la oscuridad, en una

destilación de palabras, gota a gota; y

el alcohol de su misterio me embriagará

el alma, y recorrerá mi cuerpo hasta

llegar a mi corazón, encendiendo

el poema con su glóbulo

de luz.

De: O Mito de Europa (2017)

Oração Cósmica
 

Una mujer y un hombre arden en su silencio.
Antonio Colinas

 

No corpo da nave onde um deus se esconde,
sob a cúpula de um céu inscrito na pedra, leio
as páginas do livro do tempo. Por elas
passam as paisagens em que o sol e a chuva
 
alternam, e nos seus parágrafos ecoa
um diálogo de vivos e de mortos que se
perderam nos desfiladeiros da memória.
E fecho o livro, ouvindo os passos de
 
quem me irá dar, com as suas mãos,
a oferenda de um bordado de fogo
para acender o horizonte. É com ele que
 
se iluminam os vitrais em que surge
o rosto em que, da transparência dos olhos,
eu vejo cair uma gota de infinito.

Oración Cósmica

Una mujer y un hombre arden en su silencio.

Antonio Colinas

En el cuerpo de la nave donde se esconde un dios,
bajo la bóveda de un cielo inscrito en piedra, leo
las páginas del libro del tiempo. Por ellas
pasan los paisajes en los que el sol y la lluvia

se alternan, y en sus párrafos resuena
un diálogo de vivos y muertos que se
perdieron en los barrancos de la memoria.

Y cierro el libro, escuchando los pasos de

quien me ofrecerá, con sus manos,
un bordado de fuego
para iluminar el horizonte. Es con él que

se iluminan los vitrales donde surge
el rostro en el que, desde la transparencia de los ojos,
veo caer una gota de infinito.


Nuno Manuel Gonçalves Júdice Glória. (Mexilhoeira Grande, Portugal, 29 de abril de 1949 – Lisboa, Portugal, 17 de marzo de 2024). Poeta, novelista, dramaturgo, editor y ensayista. Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana 2013.

A los cuatro años se mudó a Lisboa, donde cursó toda su educación pero siempre pasó sus vacaciones en el Algarve que marcan muchos de sus poemas. Mexilhoeira Grande, Portimão y la «Casa Inglesa», la vida en el campo, el mar: todo ello impregna su poesía.

Terminó el bachillerato en 1966 y viajó a París durante un mes con Luís Miguel Cintra (actor y director portugués). Durante este viaje, a los 17 años, tuvo la oportunidad de visitar no solo el Museo del Louvre, sino también galerías y otros museos franceses. Aquel primer viaje a París marcó a Nuno Júdice. El poema «Homenaje a Matta Echaurren» (que supuestamente escribió tras ver un cuadro del artista chileno Roberto Matta en París), publicado en un periódico de Coimbra en 1969, data de este periodo.

En 1989 se Licencia en Filología Románica por Facultad de Letras de la Universidad de Lisboa y obtiene el Doctorado por la Facultad de Ciencias Sociales y Humanas de la Universidad Nova de Lisboa, con una tesis sobre literatura medieval « El espacio del cuento en el texto medieval». Se desempeñó como profesor de Literatura Comparada en la Universidad Nova de Lisboa entre 1976 y 2015. Fué diplomático en París, donde ejerció como Consejero Cultural de la Embajada de Portugal desde 1997, y ocupó la jefatura del Instituto Camões hasta 2004. 

En 1972 publicó su primer libro de poemas  Noçao do poema. Posteriormente ha publicado Crítica Doméstica dos Paralelipípedos (1973), El pavo real sonoro (1973), Las innu­merables aguas (1974), Mecanismo Romântico da Fragmentação (1975), Nos Braços da Exígua Luz (1976), O Voo de Igitur Num Copo de Dados (1981), A Partilha dos Mitos (1982), Lira de Liquen (1986),(Premio del Club PEN portugués), A Condescendência do Ser (1988), Enumeração de sombras (1989), Obra poética 1972-1985 (1991), Meditação sobre Ruínas (1994), (Gran Premio de Poesía de la Asociación de Escritores Portugueses, 1995), O Movimento do Mundo (1996), A Fonte da Vida (1997), Raptos/Enlévements/Kidnappings (1998, poemas escolhidos, com ilustrações de Jorge Martins), Teoria Geral do Sentimento (1999), Linhas de Água (2000), A Árvore dos Milagres (2000), O Mito de Europa (2017), La pura inscripción del amor (2018), la antologia La maleta del poeta( Trilce Ediciones, Mexico 2018), Regreso a un entorno campestre, 2020, por el cual obtiene el galardón de la APE. El último libro de poesía de Nuno Júdice, «Uma Colheita de Silêncios» (Una cosecha de silencios), se publicó en marzo de 2023.

Algunos de sus poetas preferidos son Rimbaud, Baudelaire, St. John Perse y André Breton. Entre los portugueses Ruy Belo, Al Berto, Ramos Rosa o Eugenio de Andrade y Jorge de Sena.

Como novelista ha publicado Plâncton (1981), A Manta Religiosa (1982), Adágio (1989),Vésperas de Sombra (1998), O anjo da tempestade (2004), A Implosão (2014) ou O Café de Lenine (2019).

Como crítico e investigador literario, especializado en la época modernista portuguesa, ha publicado: Poesía Futurista Portuguesa (1981), A Era do «Orpheu» (1986) y los prólogos a las reediciones de las revistas Portugal FuturistaCentauro y Sudeste (SW). 

También es autor de varias obras de teatro, y sus libros han sido traducidos al español, italiano, inglés, búlgaro, holandés, sueco, chino, israelí, albanés, griego, checo, árabe (Libano y Marruecos), danés y francés.

A lo largo de su vida, Nuno Júdice mantuvo contacto con artistas visuales, especialmente pintores, pero también escultores y fotógrafos, y así conoció e interactuó con artistas como Jorge Martins, Rui Chafes, Graça Morais, Manuel Amado y Júlio Pomar. A partir de 1989, cuando sus poemas comenzaron a publicarse en francés, fotógrafos y artistas franceses (como Julie Ganzin o Colette Deblé), así como editores de arte en Francia, le pidieron que publicara sus poemas en diálogo con obras de arte.

En 2023, Nuno Júdice recibió una invitación de Donatien Grau, quien preparaba un proyecto en el Museo del Louvre para publicar poemas inspirados en el propio museo o en las obras expuestas allí. Esto dio como resultado el libro «100 Poètes d’aujourd’hui: Poésie du Louvre» (100 poetas de hoy: Poesía del Louvre), en el que Nuno Júdice contribuyó con el poema «A Inspiração do Poeta» (La inspiración del poeta), junto a nombres como Tahar Ben Jelloun, Jon Fosse, Hélène Dorion y Jacques Darras.

Nuno Júdice también dibujó, creó collages y fotografió, además de su producción poética. Estas obras se encuentran en más de 20 cuadernos inéditos de su colección.

Recibió, entre otros reconocimientos, el Premio de poesía Pablo Neruda (1975), el Premio Pen Club (1985), el Premio D. Dinis de la Fundación Mateus (1990), el Premio Aristeion de Literatura Europea (1994) de la Asociación Portuguesa de Escritores como finalista por Meditação sobre Ruínas, el Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana (2013) y el Premio Iberoamericano Ramón López Velarde (2023).

Nuno Júdice falleció en Lisboa el 17 de marzo de 2024. Tenía 74 años.



Enlaces de interés :

https://premioreinasofia.usal.es/nuno-judice

https://www.portugalresident.com/es/algarve-poet-nuno-judice-dies-at-age-74

https://letraslibres.com/literatura/jose-javier-villarreal-nuno-judice-1949-2024-in-memoriam/

https://antena2.rtp.pt/em-antena/cultura/nuno-judice-1949-2024

Entrevista: Hernando Garza

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